Terça-feira, 07 de setembro de 2010.
Notícias ››   Política & Poder ››  

Mais poesia, por favor

publicada em 01 de novembro de 2009

"A eloquência do presidente, a sua capacidade singular de inspirar as pessoas a agir e trabalhar para ele foi silenciada ou perdida em um emaranhado de detalhes tecnocráticos"

Thomas L. Friedman
Do The New York Times (Terra Magazine)

Ultimamente, cada vez mais as pessoas me perguntam: Na sua opinião, o presidente Barack Obama realmente acredita nesta ou naquela questão? Eu acho isso estranho. Como é que um presidente que enfrentou tantas questões importantes, com políticas muito específicas - e inclusive ganhou um Prêmio Nobel por todas as esperanças que ele despertou - ainda tenha tantas pessoas perguntando em que ele realmente acredita?

Eu não acho que o Obama tem um problema de comunicação, essencialmente. Ele já fez muitos discursos e concedeu muitas entrevistas explicando amplamente suas políticas e justificando a necessidade delas. Em vez disso, ele tem um problema de "narrativa".

Ele não conectou todos os seus programas em uma única narrativa que mostre as relações entre suas políticas de saúde, sistema bancário, economia, clima, energia, educação e política externa. Essa narrativa permitiria que cada questão e que cada distrito eleitoral reforçasse a(o) outra(o) e evocasse o tipo de emoção popular que o levou a ser eleito.

Sem isso, no entanto, a eloquência do presidente, a sua capacidade singular de inspirar as pessoas a agir e trabalhar para ele foi silenciada ou perdida em um emaranhado de detalhes tecnocráticos. Suas políticas ousadas, porém isoladas, estão começando a parecer um plano de trabalho pelo qual temos que avançar com dificuldade e onde temos que ceder infinitamente, só para terminar por terminar - não porque todas elas sejam as bases de um grande projeto nacional.

O que é esse projeto? O que é essa narrativa? Muito simplesmente, é construir uma nação em casa. É construir uma nação nos Estados Unidos.

Eu sempre acreditei que o Obama foi eleito porque uma maioria dos americanos teme que estejamos nos tornando uma grande potência em declínio. Tudo, desde nossas escolas até nossos sistemas de energia e de transporte, está se desintegrando e precisando de reinvenção e fortalecimento. E o que as pessoas mais querem de Washington hoje é a construção de uma nação em casa.

Muitas pessoas, inclusive os conservadores, votaram em Obama porque em seus corações eles sentiam que ele poderia nos unir em torno desse projeto melhor do que qualquer outro candidato. Muitos são o que eu chamo de "centristas do tipo Warren Buffett". Eles não são bilionários, mas são pessoas que acreditam na frase de Buffett que diz que tudo que ele conseguiu na vida foi principalmente devido ao fato de ele ter nascido neste país - os Estados Unidos - nesta época, com todas as suas vantagens e oportunidades.

Eu acredito nisso. E eu acredito que sem uma América forte - que, na sua melhor forma, pode produzir mais bens e benefícios para seus próprios cidadãos e para o mundo do que qualquer outra nação - nossas crianças e muitas outras no mundo todo não terão essas oportunidades.

Estou convencido de que este tipo de construção de uma nação em casa é exatamente o que o presidente Obama está tentando alcançar e deve ser o seu apelo unificador: Precisamos de um serviço de saúde universal porque isso fortaleceria o nosso tecido social e permitiria que as nossas empresas competissem melhor globalmente. Precisamos modernizar nossas escolas porque nenhuma criança na América do século 21 deve ser deixada para trás e porque nós não podemos competir por novos e melhores postos de trabalho sem fazer isso. Precisamos de uma economia mais ecológica não apenas para reduzir a mudança climática, mas porque um mundo que passará de 6,7 bilhões de pessoas para 9,2 bilhões até 2050 exigirá energia e água cada vez mais limpas, e o país que desenvolver as tecnologias mais limpas terá a maior segurança energética, segurança nacional, segurança econômica, empresas inovadoras e respeito mundial.

Mas cumprir esta agenda exige um público motivado e com espírito de sacrifício compartilhado. É aí que a narrativa se torna essencial. As pessoas precisam sentir por que este projeto de construção de uma nação, com todos os seus elementos variados, é tão importante - por que o sacrifício vale a pena. Um dos motivos para o fato de os independentes e conservadores que votaram em Obama terem sido tão facilmente influenciados contra ele pela Fox News e para as pessoas o rotularem de "socialista" é porque ele não deu voz ao esforço verdadeiramente patriótico de construção de uma nação no qual ele está envolvido.

"A eleição de Obama marcou uma mudança - de uma política que comemorava interesses privados para uma política que reconheceu a necessidade de um governo eficaz e de propósitos públicos maiores. Em todo o setor político, as pessoas entenderam que renovação nacional exige grande ambição e um melhor tipo de política", disse o teórico político de Harvard Michael Sandel, autor do novo best-seller Justice: What's the Right Thing to Do? - que pede para elevarmos o nosso discurso público.

Mas para cumprir essa promessa, Sandel acrescentou, Obama precisa trazer o idealismo cívico de sua campanha para a sua presidência. Ele precisa de uma narrativa que faça com que os mesmos eleitores que o elegeram aceitem rapidamente a sua agenda ambiciosa - contra todas as forças de inércia e a ganância privada.

"Não é possível construir uma nação sem sacrifício compartilhado", disse Sandel, "e não é possível inspirar sacrifício compartilhado sem uma narrativa que apele ao bem comum - uma narrativa que nos estimule a ser cidadãos engajados em um esforço comum, não apenas consumidores procurando o melhor negócio para nós mesmos. Obama precisa energizar a prosa da sua presidência recuperando a poesia da sua campanha".

Thomas L. Friedman é colunista do jornal The New York Times desde 1981. Foi correspondente-chefe em Beirute, Jerusalém, Washington e na Casa Branca (EUA). Conquistou três vezes o Prêmio Pulitzer, até que em 2005 foi eleito membro da direção da instituição. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.
Versão para impressão Envie para um amigo Deixe seu comentário
Terra / NYT; Foto: Reuters

Envie esta notícia para seus amigos

Seu nome:
Seu e-mail:
Enviar para:
envie para vários e-mails separando-os com vírgula

Deixe seu comentário sobre esta notícia

Seu nome:
Seu e-mail:
Escreva seu comentário:
0 caracteres utilizados. Máximo 100 caracteres.

Digite o código contido na imagem ao lado:
Caso não consiga ler o texto da imagem, clique aqui.

Comentários

Nenhum comentário ainda foi registrado.
Seja o primeiro a comentar! Clique aqui ››

Contato

Telefone
55-41-96236210